recebi hoje o primeiro contato dele, e terminantemente feliz, recolho todas as imagens do carderno preto para enviar.
bom dia tolo e absurdo, querida;
não gostei mesmo, ou quero dizer, desmereci sua covardia hoje ao se abandonar daquela forma, para em repetidas vezes desviar cruelmente o olhar da minha presença que era feita tão em razão da sua. estou ali por você e por mais ninguém, e nem bem sei se a razão tem me bastado. sinto-me desmiolado, e quase confuso. nessas horas pouco me importa o último homem do mundo que sou. não quero começar a abobalhar, mas está equivocada na busca, a tensão que procura no gesto para segurar o queixo daquela mulher e daquela forma pode partir até da orelha, mas não só dela e não só sempre dela. é algo que vai e volta de várias partes, que irá descobrindo eternamente, sem parar, cada dia uma mais inesperada, e que belas surpresas. você estava muito bonita quando se esqueceu de si mesma, poderia ser eu o rosto e o queixo daquela mulher porque quis ser segurado daquela forma comovente. você foi parte de mim, você se torna parte das coisas. por toques de piano em laços. a fragilidade que vejo em você começa a transparecer nas pernas e sei que sabe, não gosto quando me esconde. você tem tanto medo dela, que impede qualquer outro desmoronamento, olhos e tremores. e escrevo claramente como se dissesse a mim mesmo que não abro mão da forma como disse tão mais alto quando pedi que tornasse os pulsos contra mim de forma diferente da que fazia quando procurava intenção de partida com aquele magnetismo que impelia a mim e ao luo. poderia dizer que por hoje basta e poderia ser breve, simples e delicado, porque minha intenção não é estragar com seu descanso e sei bem onde está e o que fará depois de ler, mas não farei. toque-se de dentro para fora e não de fora para dentro. imagens nos servem? rasgo você com tanta insistência e de forma tão direta, e anseio sua percepção nervosa, muda, seus olhos grandes a sentirem a ponta de um rancor de amor que sente sempre que começo a falar. se servem as imagens, de qual forma? em que consiste o elemento simbólico da estruturação de uma imagem que se refere única e simplesmente ao movimento? para criar uma estruturação de movimentos triádica, na qual, sem o terceiro desdobramento não há circulação, deveríamos nos ater a esse critério que é irredutível à ordem do real e do imaginário, mas é mais profundo que os dois? não tem a ver com formas, imagine por exemplo que era claro como trançava os pulsos um sobre o outro, e a forma como havia figuras de imaginação em você, através das quais deslocamentos estruturais deviam dar conta ao mesmo tempo do próprio, ou seja, do que você se constitui como ser humano que é, e do figurado. não poderia dizer também de essência, porque não podemos combinar no movimento elementos formais, quando se trata da criação - e a mesma viraria um bloco de pedra, ou antes, uma parede, porque ainda vejo na pedra algo da criação de deus -, visto que não há na primeira nem forma, nem significação, nem conteúdo, nem inteligibilidade por trás das aparências que causa ao se mover. peço então que estruture, mesmo que o estruturalismo seja brutal e possa lhe arrancar um mundo por segundos, mude muito da vida que é, ou por hora, peço que estruture com vida, e não a vida com que se move. não se culpe quando desconhece. o que desconhecemos torna-se interpretativo e renova nossos olhares sobre nossa condição de existência. não digo de ponto original onde se faz sua linguagem de movimento, ou mesmo a linguagem em si com que se move quando é, porque essa é a mais importante. posso intuir em mim, e tudo que digo, sabe que só o digo como pontuações ou angulações ou mesmo pequenos beijos de aço para que flua, nesses fluxos sinuosos e espiralantes, porque experimentei em mim, e denuncio dizendo que no final não há interpretação estrutural capaz de segurar esses sentidos que construímos, e nos tornamos menos pensamento e mais movimento. continue anotando palavras, desenhos imagem em bico-de-pena, nanquim, ou lápis grafite afiado como o diz e me envie. espero ansiosamente.
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