19 de dezembro de 2010

isso mãe que disse, chegou de porre em casa ontem da festa, disse que o vestido fez sucesso estrondoso e chamaram ela para as fotos todas, seu amigo tirou, amor, aquele de bigode, e quebrou uma travessa de vidro enquanto fazia um chá de boldo na cozinha três da manhã. disse que ele tinha ligado avisando mas que ela não entendeu uma palavra, dessa ligação anali, e você deve receber a garota, não seja restrita em alcance do espírito por paixão, governada pelo egoísmo, essas suas paixões são completamente imaginárias, mesmo que eu não tenha entendido o que disse, meu dever é dizer. têm que forçar suas paixões a ultrapassarem a parcilaridade. ela decora as palavras do analista, agora entendo, não é egoísmo, estou apenas sendo naturalmente parcial, é parcialidade, diga comigo, em direito. pois então faça o exercício de passar da simpatia à generosidade. não desfaço, tudo azul claro, e agradeço a bermuda jeans e a camiseta que ela mesma lavou, mesmo que não goste de me ver sem sapatos pela casa e seja sempre repetitiva, diga que emagreci demais, pergunta se me alimento, coloca pessoas me perseguindo. quando entrei no quarto colocou todas as roupas que trouxe na mala para lavar, ela insiste em ser invasiva, e fazer restar pouco de mim no que ainda está presente, se é que é assim que me acho, eu não me importo, só me irrita. não sei realmente o que digo quando a vejo, quando sou acometida por ataques de pânico repentinos, se me faço estúpida e evito olhar sempre e se quando olho algo se estabelece laço e meus sentimentos são sempre estirados e não se contentam em se tornarem menos atuais, mudam de cor e som repentinamente, e foi isso que ele disse na carta, que estou limítrofe, que os sentimentos não tomam corpo de fato e que resvalo e guardo como broche raro de coleção como se fosse só a mim pertencente e não em instância mais subterrânea e implícita como a do gosto, o gestus que ressoa no ambiente como o dedilhar do piano que luo fez, se há problemas de credibilidade nas pessoas do mundo, se minha imaginação se faz quando amo nua de semelhança e causalidade, se há entre mim e tal objeto uma relação natureza crua que nos aproprie um ao outro, uma aliança que se fez, na imobilidade dela na minha frente enquanto colhia limão na árvore, um dardo lançado contra o espelho ou se será preciso tocá-la recuo e ando frente sem cessar, pergunto se quer que eu pegue na bolsa, a bolsa, pegue nela. tirou as formigas pequenas da mão, e como se apoderou de mim, por um segundo achei que tivesse vindo de propósito porque não fazia em mim sentido vir a não ser que fosse a mim sentido, sem sentido de esforço algum nos entranhamos uma a outra, a calça rosa horrorosa. já sabia o caminho do quarto dele, não entendo, o mesmo, pergunto se foi foto que viu. mão carimbada. tinha um carimbo bobo nela, e uma simplicidade e firmeza se desprendiam de meus gestos para com ela, uma grande complexidade sem argumentação e causa, sem prática de criação de artifícios de proximidade. a clareza decisiva nos acometia em operações de corte e fogo ao arrumarmos o quarto e se corríamos o risco de sermos sacrificadas e de termos que renunciar era um encontro que me romperia e prefiguraria um futuro. quando a manhã próxima chegar estará tudo bem, sem cessar de ser amanhã, sem fraqueza me estatelando o peito. causalidade de aguardar os ramalhetes de luz. contar com o sempre manhã, ultrapassar os dados do hoje, inferir que, ao ver o sol se levantar, o dia começará. volta a loucura gentil, o ritual. sabe que a olho pede e que venha
que venha com brutalidade

ligo para vil. luo está acostumado com repertório. não podemos de forma alguma confundir acidental com essencial. foi ilegítima a ambiência criada, ultrapassamos a experiência por confundir superstição com poesia. fico tão obediente a você, o que faço? só você não viu a marca do choro na madeira do piano. ele responde calmo dizendo ser o juízo do gosto um acordo entre prazeres.

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