15 de dezembro de 2010

e o que aconteceu? sinto impaciência, não, não me importo, é uma forma de tentar entrar em você. vejo você cair, o mesmo. devoro o que me parece imperceptível e apenas longas horas depois me apercebo do fato e me envergonho por estar tão estático. tenho tido uma relação muito próxima com seu trabalho, que paralelamente tem infundido aspectos dele, ou melhor, seus aspectos, no meu e criado instabilidade. quero você perto logo e falto ao meu lugar. essa instabilidade de quando um fluxo está lutando contra uma desigualdade dentro de si mesmo, é uma desigualdade arquetípica no movimento. onde está, a torção de plantas como o feto, os enrugamentos das cadeias de montanhas, os ocos dos seus órgãos, tudo segue um caminho, só que você não está seguindo o seu, porquê no limite a vida floresce e você não se permite. eu compreendo as especificidades, ou quando move suas mãos aos cabelos para depois deixar surgir de dentro um objeto monótono denso e tênue que pertence realmente a você. chegamos ao que interessa. você me disse que primeiramente com ell e ela trabalhavam elementos simbólicos do inconsciente que poderiam remeter necessariamente a movimentos libidinosos encarnando singularidades das estruturas do sujeito. o sujeito. então se a estrutura define um campo problemático, é no sentido em que a natureza do problema, que escancara a própria natureza das coisas e dos seres, revela sua objetividade própria, próxima a uma música. não sei, mas começa a ficar impossível escrever. sinto calafrios e febre. peço que ligue, quando realmente estiver muito frio porque eu não gosto de comentários sobre o tempo. quando não me interessa o tempo aí fora.
uma resposta tão cedo e um grande susto. não acredito em coincidência. ele tinha o espírito aberto e uma ingenuidade absoluta para tratar de assuntos de pele e ossos que me assustava. ele observava de maneira perfeita, apresentava numerosas formas de fluência que via em si mesmo e me dava escancaradamente, e só a mim, e tocava minha pele quando não compreendia, e fazia tudo grudado às minhas costas, tudo para que nos entrássemos e nos compreendêssemos. depois chegava com fotos, dezenas de desenhos precisos como desenhos de um neurocientista, ramón y cajal, ou algo. era um experimentador, curioso e disciplinado. lutava contra qualquer absurdo do que não acontecia de fato em mim. tinha noções de coisas fantasmagóricas, as vezes platônicas e as vezes completamente precisas. não entendia porque eu. quando nos sentávamos para jantar não dizia uma palavra congestionada, era tudo muito claro, limpo. e eu gaguejava, chorava, me sentia o pior dos seres. mal dizia algo a ele que realmente pudesse fazer sentido qualquer naquelas momentos, e me sentia ainda mais envergonhada. pode ser que ele tenha somente se atido à impessoalidade, propositalmente. trabalhávamos. e algo ondeava dentro dele, e seus olhos eram muito calmos e tinham um brilho inimaginável, ele não pode parar. apesar de tudo eu podia ver como me abraçava na hora de partir e dizia da pressa de chegar em casa e ver seu companheiro. sempre se atrasava, o tempo começou mesmo a confundir tudo e alongar nosso contato. cada dia começava a se atrasar mais. e aconteceu o que eu temia. não foi. nos deitamos na grama de fora e por vezes algum comentário atravessava com acentos toda a noite. eu me calava, a casa vazia. ocupava o lugar da morta. ele tinha acabado comigo. não havia força para sequer atender o telefone que tocava ao lado. e no próximo encontro comentava levemente que não poderia se atrasar novamente. o fato é que agora, uma crise de pânico me detém e me delonguei no que poderia realmente preencher minha ansiedade. ajudei mãe a arrumar um vestido de festa porque o mesmo não prendia no punho. fiz que cozinhava, mas apenas atirava legumes na panela sem lavar e olhava a água. merda, ele não quis esperar os correios, está impaciente e me amedronta a forma como se refere a si mesmo. não quero ligar. se eu não ligar vai se enfurecer, vai me recusar por todos os dias da minha vida, não vai me perdoar.
sinto frio, não queria ligar, não deveria
fez de propósito? eu não me enfio onde não devo
você nunca poderia saber onde
mas eu sei
e onde
você ficou ausente uma semana, por isso me tem dessa forma
eu nunca te tive, poderia ter sido mais direto desde o início da conversa, agora é em você a covardia, vocês todos têm que ser tão covardes assim como sou. eu podia dizer com clareza que já tive medo de perder você sem covardia e não entendia, mas eu digo agora sei que o meu medo não era de perder ensino
estou com sono, morto de cansaço, estou cansadíssimo, quase não ouço você
não quer mesmo ouvir o que tenho a dizer está querendo é me dizer, e fará egoísmo
estou querendo dizer e você não quer ouvir
então diga
é segredo
então não é segredo
como
se você sabe o que quer dizer então não é mais segredo nada se revela não chore
é inconfundível seu choro, não diga nada mais, quer ligar para ele? vamos, ligue logo, perde tempo demais e chora demais tarde demais falta clareza está atrasado faz dias
{choro ainda ouço sem cessar mais fraco ou mais forte uma voz que acompanha as imagens das mais repulsivas e das que mais desejamos, já sabíamos}
ligue você e conte
devo apenas a ela palavras
e o que dirá
que houve uma exceção única em minha vida
{e sorrio sem razão debochadamente, talvez quisesse por um momento ferir} mas que eu nunca poderia me ater a ela
{pequena morte}
apesar de querer habitá-la até quando me houver

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