1 de fevereiro de 2011

laugh

eu nunca gostei de você Hugo, não sinceramente. pelo contrário, você machucava. exceto quando misteriosamente deixava a escola com guache na mão e me gritava banana de fora do portão ou nas frestas dos muros transpirava em inversos pela escada ou fuga violenta de comigo ninguém pode nessa escola. como se eu pudesse mesmo com você entender os insultos pelas partes perdidas da gramática escolar, que já hoje não me lembro muito bem, e escrevo como posso na incerteza de que conseguirei me esvaziar da própria incerteza desse movimento contrário dos sons nos nossos lábios. nosso problema é que você escolhia os obstáculos, passava por eles, e depois voltava para me sanar nos mesmos percursos doentios. nunca tive a chance de deixar obstáculos me perpassarem, fui saco de arroz na feira de soco e pancada, terror e pânico no universo da cantina ou mero confidencial de biblioteca, dos livros por mim nem lidos nem lindos. a dita impossibilidade da minha comunicação sempre matou qualquer chance de palavra em mim, eu me repudiava por gostar de observar e escrever no caderno que ninguém nunca leria, tudo que a mim gostaria de ter dito se a época era guerra, savana africana, cinema indiano ou a próxima estadia em júpiter. você era o que espancava os colegas, puxava a saia da professora, escrevia blasfêmias no quadro, que longe de ser negro, era azul-céu da cor dos meus primeiros miados de menina tola que sempre fui, ou me fiz ser para me desvincular do mundo em covardia. pelo princípio, sempre tive amor em mim. sempre depois da botada de couro na boca que me dava pra roubar as páginas e alto ler porque já não havia graça no seu mundo, e queria rir do meu. pois então, escondia os livros e você lia como sustentáculo de seus desígnios e para se provar diverso, porque não poderia partilhar das minhas angústias. que sirva de aparador para sustentar seus medos pesados. pelo princípio, ainda me lembro do seu desespero lânguido pelos corredores quando chamavam papai e você olhava agora tão pequeno dos cantos dos janelões, um por um, para acompanhar a caminhonete que chegava e fechava seus olhos de tempos em tempos tentando se esconder que vai cair a casa sem névoa ou jardim. ter que sempre trancar alguém nas provas das múmias invertebradas nos frascos de laboratórios e Antuña corria embriagada da cantina pra salvar o próximo desesperado trancafiado em seu poder tristonho.
sua vida, minha escolha, os pesos nos papéis soprando em tônicas alternativas peças devagar instantes de saber Affonso na tolha da morte ensina ao apagar a prova que se arde antiga arreada venta sem ser percebida. em Mel sol comburente coalha a luz nas ruas de um certo movimento pardo e quando sem embargo teste as portas da cidade castas já vazias cestas pra dormir aos ombros de seus vinte anos. ou meus sete longos caprichos por liteira severa sei que o tempo mata qualquer gato desapercebido. permita infantil franzir seu delicado semblante fresco e rosado e por vezes no vestiário diziam-me com benevolência do dourado das sandálias, olhe em contas azuis os olhos de malícia: a alma inquieta sonhadora. antes de ficar moreno, por vezes era loiro, mas desse loiro ruivo bem cotado e querendo atenção no intervalo eu chamava carinhosamente extravagantemente espirituosamente como quem doma tigre leopardo: ma blonde! ma blonde!, e atravessando as poças porcelanas brancas portuguesas punha-se a porta aberta mudo louvor trinava brando um som que mal podia conceber - je ne suis blonde pas. merde par vous.
seu mal-humorado. e de faces incendidas, revidei sem demora: - como pode falar dessa maneira? - e a outra Virgínia com um sorriso à flor dos lábios retraía notando por alguns minutos se apertando livre leve e solta na espera orneada por cabelos castanho-cacheados finos veludíneos do outro lado do espelho feminino na porta da outra entrada asfixiava e queimava como as tempestades do deserto - e sabe, que sua irmã está correta, vejam só, como quer ser mau e rancoroso, e eu que o supunha capaz de matar um mosquito sem chorar... é conveniente não exacerbar seus ciúmes e que muito já foi visto, eu mesma com meus olhos curiosos vi e que... e aí você a pega pela gola do vestido inglês e a levanta pelas paredes gritando monstra ela se cala resistindo, mantém-se de pé toda queridinha, braços cruzados, medindo o ambiente com olhos sombrios e arrogantes e se ouvir uma mais palavra arrebento-lhe a boca e todos os dentes para amolecer a espinha e desentupir os ouvidos, monstra. você não era feio provavelmente pela energia tão grosseira e desperdiçada de coragem leonina e repugnava a violência exausta palidez profunda dos gestos profanos pelo sucesso de uma nova conquista. Virgínia já prazenteira e risonha envolvia-o num olhar selvagem e grato. me tirou o sono, e durante uma semana acordava estendendo no amplo quarto de brincar o uniforme escolar e acocorada enxugava meus pés para calçar de uma só vez as botas de atacar de couro marrom, sustentando-as em pequena selva prateada contra o espelho, absorta em profundas cogitações, notando os próprios gestos insistentes, não cabia e me divertia franzindo como você a testa imitando os cabelos a voz impaciente a pressa de vestir os passos cadenciados as sequências movimentam fortes tão fortuitas eu-você nos possuíamos em terras e benfeitorias muitas gramas de calcar a noite as minhas pernas trêmulas nas suas nervuras os meus pés nas suas botas quentes despoetizando o sexo sem assinar assim ou assado e Virgínia pálida em minha mente, eu me senti você e a quis até que acabe e se acenda a luz e Martha me tire de dentro de você. estive proibida de colocar o uniforme e me acostumei com a saia sem dizer palavra no refeitório. olhava Virgínia como amiguinha e o repasto continuou silenciosamente, e abrindo pesada porta entrei num pátio de altos muros e na extremidade do qual se assentavam duas jaulas grandes e fortes, contendo respectivamente um tigre e um leopardo e no centro do pátio erguia-se um quadrante solar, e estátuas de pedra vermelha, ornando-lhe ângulos. foi essa a primeira recordação e como era mais velho se fez um pouco antes de mim em desejo e como o disse depois a mim a você era uma leitura na serra, a caminhada, e uma ânsia de descobrir que vertia em violências. sem embargo de um tal enlevo, transparecia-me o rosto profundo aborrecimento e nervosamente, mordicava os lábios pelo desconforto que as múltiplas confusões que sentia em relação aos meus desejos causavam a você, num arrombo invadiu a cozinha de mamãe em data desconhecida, pelo que Martha mesmo me contou depois do que aconteceu entre eu e ela, e disse que a ridícula vigilância dela a pedido de papai começava a irritar, e por não me deixar um minuto a sós, não permite que eu abrace as pessoas nem mesmo a título de gratidão e precisa compreender que não sou mais uma criança como aquela em que vestia o uniforme e que as amando, apraz-me com elas conversar sem testemunhas ou dizer do que sinto ou de quanto sinto ou desejo.
tolinha disse ela justamente por conhecer a sua leviandade é que fiscalizo os seus colóquios, e como viveu mesmo muito tempo na fazenda, sentiu-se a vontade para metaforizar o campo: é o vitelo faminto que divisa a erva tenra e quer devorá-la de qualquer forma. ele está louco de paixão precisamente por não poder e há de empalidecer e definhar e agora conhece a razão da minha conduta anterior, acaba de vez com as recriminações e me solte a cintura, vocês se parecem até como seguram, e o corpo não mente a sensação reminiscente do toque. o toque é a lembrança da alma em mim e sem pecado movimento na primeira gravação dos movimentos, a forma dos toques que me atravessavam e dessa vez, sem discrição.
que não conhece você os laços que a ele me prendem, e se há indiferença em meus escritos na bagagem de mão, é por pouco me importar seu fundo e esperar que meus amigos se conservem mesmo no espaço ainda que aqui não pertençam e que eu rememoro com confusões de nomes e vestes, porque nem tudo nos vem sem véu e araque nessa vida de passagem, e nela espero sempre passar sem cessar de esperança. desprendi todas as reservas de meus parcos talentos até me esgotarem os tesouros da vida eterna - por vezes errei as falas em cena, trocando primeiras frases com terceiras, quando em mim alto acendiam luzes pra dizer e eu desistia sabendo que logo depois erraria movimentos e cederia ao erro como acerto máximo na luz dessa razão que nunca vai me abrigar, e no entanto me é aprovação - , por saber-te em manchas obscuras na alma e saber-te obscuramente gérmen de um bom propósito, a imortalidade, que antes um sonho que o torturava em improdutividade, agora um sopro no peito sem razão mística qualquer, a não ser a alquimia incansável que a vida nos permitiu até hoje pra nos integrarmos, eu e você e eles. tenho esperança, Hugo, de fazer com que Vil me tenha liberta porque nem mesmo ele o sabe, não com essas palavras, mas ainda me racionaliza com olhos ferozes e me cobra com sensacionalismo medíocre de querer me ter em movimento quando já me tem. tenho esperança que um dia você volte um pouco mais aberto, menos odioso, mais compreensivo com minhas atitudes. saudade bruxa do seu sorriso bobo, e se vivia muito, cabeça dura, vivia tarde. perdôo tudo que a mim fez, mesmo que não se perdoe nunca. o livro que roubava era o consolo e o esclarecimento que eu procurava no ambiente, sendo ensombrada e combalida pela então descrença e vicissitude. não era para ser lido, mas discutindo a diferença do processo de autoria e de autonomia, tivemos eu e Vil uma briga que mais parecia briga de animais, da qual não me arrependo, não exatamente, mas queria ter tido como explicar o que era simples. ter que explicar é um martírio que me inquieta, não sei justificar. sei que o que criamos ao mundo pertence. isso extingue a autoria? os laços que a ele me prendem são imensos, amor.
estou enfurecida com a audácia de Vil e perplexa com o espírito de contradição que lhe é peculiar. pois bem, não tardou que aquele semblante de anjo, aparentemente calmo, se transfigurasse numa maldade requintada e vulgar, em olhos de fagulhas aceleradas, venenosas e nada faz mais nem sentido sobretudo o colorido das suas brincadeiras de criança. e o faz como quem monta um poldro impaciente, escavando o solo e olhando suspeitosamente para minhas curiosas reações diante do que fazia a música ao seu corpo manso.
- não confias neste pulso? o domínio destes é brincadeira de criança. - e empunhava as rédeas sem uma visão muscular, era tudo ósseo-estrutural, parece-me que poderia facilmente carregar montanha no dorso encordoado. suas mãos eram de ferro. o animal fremia, mas a firmeza dele era tão grande que evitava acidentes como se estivesse dirigindo e se negava a ouvir o errante do próprio movimento. isso o tornou estável demais e repetitivo. parecia que há muito tinha servido o exército e que fora gravemente ferido dando baixa para se dedicar em outro lugar à gestão de sua própria dança.
eu confio no errante, e não o vejo em você. por exemplo, vejo que quando me movo sou incerta até mais do que o permitido pela sua credibilidade e seus grandes olhos penetrantes exprimem quando digo a mais franca cordialidade e admiração, diante da súbita estacada da música que antes parecia voar pelo organismo, como se ali fora detido e encravado no solo por dois pulsos de aço. se me mostra o mesmo princípio, e o mostra como se levasse mosquitos presos a uma linha, não consigo observar que há um ser humano errante, e sim uma pessoa que já se sabe tão completamente no transporte do inimaginável. isso é bonito, mas não entendo bem.

a fadiga do dia seguinte é insuportável - o aviso audível dos fogos antes do estouro - e já que não consigo me levantar mando geishas desarmoniosas carregarem minhas dores como se levassem chá ao homem cheio de razão. dor temerosa dor de não ter olhos pros seus olhos-mente na chance que te trouxe a manca menina dos olhos mel e agora ter que arcar com a mesma perna é demais, seu desespero, minha atenção sorrindo devagar. no entanto ter tanto em desistência feito foi por confundir. a parte de mim que objetivamente se move não é centralizadora de toda minha experiência. já que é decepcionante a sua frustração ao me olhar fazer o que pede, porque não o faço em teimosia oblíqua, perpasso instruções e obstáculos distraída de propósito com as mãos nos cabelos, e com essa túnica azul que diz gostar que eu vista mas que me aperta os seios diagonalmente, respire, não se esquece e se esquece que obviamente eu não consigo. acerca da pesquisa anotei rigorosamente em três brochuras pontos cruciais que me tiram a razão e sobre os quais tenho trabalhado incessantemente. uma sobre o confinamento, outra sobre a retenção e a última sobre a dispersão. envio aqui a segunda sem capa ou nome, há apenas uma sequência de anotações com desenhos mal feitos, nunca fui boa nisso, apesar de gostar de rostos - , e peço que não a inutilize. devo também contar que tenho feito gravações dos movimentos pra enviar, e que parei de responder seus avisos luminosos para deixar que seu humor encontre o cais seguro da chegada, e que volte pra casa reerguido. a cópia da carta do consulado subscrevia abreviações fanáticas e mal poderia entender o motivo da negação de sua permanência e tamanha inconformidade me abalou os nervos, senti dificuldade de me colocar em trabalho por três dias e no terceiro tive um problema odioso que nem vou contar e você possivelmente já sabe do que se trata. seu pai era um homem cruel. estou triste e não sei como dizer sem enganos e misérias que sinto as ausências todas e por um momento dirá que sou feita delas e talvez cogitará fazer considerações indelicadas e breves, porém giratórias. o seu racionalismo vai matar tudo que há entre nós e sem chance de volta. hoje desfaço também sua generosidade para com meu aprendizado, sua imaculada concepção da matéria dos meus desejos. não me surpreendo mais com golpes heróicos. compreensível, formatar a necessidade de um todo harmônico aos caminho já conhecidos por você e que minha totalidade nunca compreenderá porque estou em outra instância. estamos problematizando as dúvidas e as incertezas do movimento com descrença exata de quem não consegue encontrar sequer a busca e você está completamente decepcionado, frustrado, desapontado e se esqueceu das palavras, do seu nome, do seu amor.
- a cereja colhida em leque.
- você é tão doce materno.
tive também uma visita, uma amiga louca do meu irmão que veio me conhecer. não imaginaria seu desejo de me observar escondida atrás das redes as cinco da manhã quando o dia mais parecia uma estranha entranha de todo um século e eu saí até a beirada da primeira serra do quintal e dancei até esquentar. isso me impediu que enviasse antes mais imagens antes. já que só o pude fazer agora aí vai uma caixa de imagens de flores daqui que eu mesma tirei. faço como se tivesse brincando. agradeço a você a volta do meu senso infantil. estou tão descrente ao mesmo tempo, evitei voltar, mas a noite num impulso me tomou as rédeas e sai desapercebida. deixei uma cesta pros meus velhos tão bonita, manufatura digna de prêmio, e cheguei com o recado da mamãe na caixa postal, me chamando de delinqüente juvenil. acho que ouviu a expressão no noticiário e quis usar. típico da espécie.
ãm na maré baixa da noite em toque de recolher, nenhuma cabine de táxi em vista, anestesiada começo a jornada até casa, tenho vivido dias sozinha, tenho evitado coisas, o telefone toca e uso a caixa postal, de dentro para fora de dia, de fora para dentro de noite,
r, soho na maré alto do dia, evasiva, só esqueço, uso o walkman quando ando e não falo, o momento passa e não pego, errada na hora certa e estufa, as mesmas pessoas meninas que nunca vi recostadas na lã de vidro, cedo, que devia ser de doer. ãm no canto do letreiro preto grande só no canto e me conta como me comove seu olhar de quem vai ficar horas enfrente o meu nariz esperando a cinderella despertar até chegar bruxa e dizer páre agora que vejo o que está fazendo me traindo descaradamente ratazana com que cara.
a situação fica cada vez mais difícil e você prepara uma bebida pra bater como poderia resistir as luzinhas piscando aqui e ali ãm ãm ãm sem decisão definitiva tentando recuperar ou juntar partes do que foi definitivamente separado por forças contrárias e algo encravado como injeção intravenosa toma lugar e você bebe descontroladamente o que era da cliente e coloca firmemente o copo pela metade onde estava o copo dela e sorri porque que diferença faz? e pra mim nenhuma, luo no fundo toca como se esguichasse linfa prateada.

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